sexta-feira, 3 de abril de 2020

Texto: Lembranças


Lembranças

Era apenas mais uma tarde, nada rotineira. No dia anterior, discussões virtuais criavam e recriavam nosso percurso rumo às águas vindas pelas chuvas no sertão nordestino brasileiro. Batido o martelo, decidimos sair às 06 com direção a fazenda Gavião. O trajeto não se fez nada fácil, principalmente para quem não tinha o hábito de pedalar. Uma verdadeira tortura sob duas rodas e uma cela nada macia – já podem presumir o resultado...
Já na Fazenda, senti-me acolhido pelo olhar sereno de Dona Guia e pelo forte apertar de mão do grande amigo Robinho, que transpassa uma “brabeza” sem precedentes, com sua barba estilo lenhador, além de uma presença inenarrável. Contudo, ao contato, se faz tão humilde quanto uma criança; prestativo como uma freira; amoroso como uma mãe. A simplicidade do momento mostrou-me que eu estava em casa. E eu sentia-me em casa.
Entretanto, por mais que eu queira, não quero me ater aos personagens. Esse relato nasceu da necessidade de transcrever o lugar e o sentimento que o mesmo despertou.
A fazenda Gavião é como qualquer outra: possui curral para o gado, para as ovelhas, galinheiro, açude, etc. Em seu centro encontrasse a casa, circundada por um aconchegante alpendre, contornada por fruteiras dos mais variados tipos e ligada à estrada vicinal por uma vereda, que, em tempos de chuva, torna-se viva e forte com a água que escorre pelas suas margens. Essas características, logo de inicio, me despertaram um sentimento de pertencimento ao lugar...         
Após o almoço, no alto do torpor proporcionado pela comida, além do cansaço trazido pela desgastante viagem, cada qual tomou para si uma rede. Preferi deitar-me na rampa da garagem, tendo minha mochila como encosto para a cabeça. Foi nesse momento que Deus, no esconderijo íntimo do verso, me trouxe grandes e saudosas lembranças. Aquele lugar, aquele momento... Levaram-me de volta aos tempos antigos, mas muito próximos, lembranças guardadas com na memória com carinho.
Quando criança, meu lugar de paz era o sítio dos meus avós. O local apresentava uma simplicidade que levo no coração. A casa principal era circundada por alpendre e era o local onde sempre nos reuníamos após o almoço para jogar conversa dentro. Gostava de escutar os mais velhos contarem suas histórias, muitas vezes duvidosas...  não me deixava enganar facilmente. Sempre versavam sobre personagens dos tempos de juventude dos meus avós e de suas façanhas.
Enquanto ouvia as arisias, desfrutava e aliviava meus olhos com a paisagem composta por Deus. Sim, Deus! Havia fruteiras de todos os tipos, verdes e vivas. Seus frutos eram coloridos: amarelos, laranjas, vermelhos, verdes. Existiam flores diversas. Existiam veredas com água corrente. Era um paraíso em plena seca. Um oásis. A mais forte lembrança era do carinho e amor que meu avô empregava para cuidar de seu pomar.
Mesmo debilitado do joelho, nunca fraquejou em manter Deus de pé, vivo e verde. Eu, como uma criança levada, de vez em quando dava um chute no chapéu do velho Antônio só pra ver onde ia cair. Aquilo era riqueza. Deus se fazia presente ali. Deus era ali. Todas as árvores eram podadas e organizadas de modo que proporcionava sombra para a casa a tarde inteira. Esse fator tornava o ambiente ainda mais aconchegante.
Havia também a biqueira. O sítio era privilegiado por Deus, que destinou um bom aquífero para a região, com água doce em abundância e de boa qualidade. Assim, com um poço furado no rio a 200 metros de distância, com mangueiras direcionando o seu trajeto, a água jorrava do alto de uma biqueira para cair forte e, paradoxalmente, aconchegante sobre nossas cabeças. A biqueira atraia a atenção das crianças e adultos, que se esbaldavam com suas águas cristalinas.
A paisagem verde, as águas, as arisias... Momentos de esplendor da paisagem, momentos de diversão, momentos em família... São instantes que não voltarão mais... Únicos em sua essência. Como diria Maneva, “são só lembranças...”. Lembranças de um lugar sereno e de paz. Lembranças do meu velho avô. Lembranças de Deus.

Vista do alpendre da Fazenda Gavião, situada a 7km da pista que liga Picuí a Nova Palmeira.

Vista do Alpendre do sítio Várzea Verde, situado a 3km da estrada que liga Frei Martinho a Picuí.