Lembranças
Era apenas mais uma tarde, nada rotineira. No dia
anterior, discussões virtuais criavam e recriavam nosso percurso rumo às águas
vindas pelas chuvas no sertão nordestino brasileiro. Batido o martelo,
decidimos sair às 06 com direção a fazenda Gavião. O trajeto não se fez nada
fácil, principalmente para quem não tinha o hábito de pedalar. Uma verdadeira
tortura sob duas rodas e uma cela nada macia – já podem presumir o resultado...
Já na Fazenda, senti-me acolhido pelo
olhar sereno de Dona Guia e pelo forte apertar de mão do grande amigo Robinho,
que transpassa uma “brabeza” sem precedentes, com sua barba estilo lenhador,
além de uma presença inenarrável. Contudo, ao contato, se faz tão humilde
quanto uma criança; prestativo como uma freira; amoroso como uma mãe. A
simplicidade do momento mostrou-me que eu estava em casa. E eu sentia-me em
casa.
Entretanto, por mais que eu queira, não
quero me ater aos personagens. Esse relato nasceu da necessidade de transcrever
o lugar e o sentimento que o mesmo despertou.
A fazenda Gavião é como qualquer outra: possui
curral para o gado, para as ovelhas, galinheiro, açude, etc. Em seu centro
encontrasse a casa, circundada por um aconchegante alpendre, contornada por
fruteiras dos mais variados tipos e ligada à estrada vicinal por uma vereda,
que, em tempos de chuva, torna-se viva e forte com a água que escorre pelas
suas margens. Essas características, logo de inicio, me despertaram um
sentimento de pertencimento ao lugar...
Após o almoço, no alto do torpor
proporcionado pela comida, além do cansaço trazido pela desgastante viagem,
cada qual tomou para si uma rede. Preferi deitar-me na rampa da garagem, tendo
minha mochila como encosto para a cabeça. Foi nesse momento que Deus, no
esconderijo íntimo do verso, me trouxe grandes e saudosas lembranças. Aquele
lugar, aquele momento... Levaram-me de volta aos tempos antigos, mas muito
próximos, lembranças guardadas com na memória com carinho.
Quando criança, meu lugar de paz era o sítio
dos meus avós. O local apresentava uma simplicidade que levo no coração. A casa
principal era circundada por alpendre e era o local onde sempre nos reuníamos
após o almoço para jogar conversa dentro. Gostava de escutar os mais velhos
contarem suas histórias, muitas vezes duvidosas... não me deixava enganar facilmente. Sempre
versavam sobre personagens dos tempos de juventude dos meus avós e de suas
façanhas.
Enquanto ouvia as arisias, desfrutava e
aliviava meus olhos com a paisagem composta por Deus. Sim, Deus! Havia
fruteiras de todos os tipos, verdes e vivas. Seus frutos eram coloridos:
amarelos, laranjas, vermelhos, verdes. Existiam flores diversas. Existiam
veredas com água corrente. Era um paraíso em plena seca. Um oásis. A mais forte
lembrança era do carinho e amor que meu avô empregava para cuidar de seu pomar.
Mesmo debilitado do joelho, nunca
fraquejou em manter Deus de pé, vivo e verde. Eu, como uma criança levada, de
vez em quando dava um chute no chapéu do velho Antônio só pra ver onde ia cair.
Aquilo era riqueza. Deus se fazia presente ali. Deus era ali. Todas as árvores
eram podadas e organizadas de modo que proporcionava sombra para a casa a tarde
inteira. Esse fator tornava o ambiente ainda mais aconchegante.
Havia também a biqueira. O sítio era
privilegiado por Deus, que destinou um bom aquífero para a região, com água
doce em abundância e de boa qualidade. Assim, com um poço furado no rio a 200
metros de distância, com mangueiras direcionando o seu trajeto, a água jorrava
do alto de uma biqueira para cair forte e, paradoxalmente, aconchegante sobre
nossas cabeças. A biqueira atraia a atenção das crianças e adultos, que se
esbaldavam com suas águas cristalinas.
A paisagem verde, as águas, as
arisias... Momentos de esplendor da paisagem, momentos de diversão, momentos em
família... São instantes que não voltarão mais... Únicos em sua essência. Como
diria Maneva, “são só lembranças...”. Lembranças de um lugar sereno e de paz.
Lembranças do meu velho avô. Lembranças de Deus.
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| Vista do alpendre da Fazenda Gavião, situada a 7km da pista que liga Picuí a Nova Palmeira. |
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| Vista do Alpendre do sítio Várzea Verde, situado a 3km da estrada que liga Frei Martinho a Picuí. |


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